segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Há tanto tempo...

Viu-se de repente em meio à penumbra. Esquecera-se de tudo que um dia fora seu.Não mais lembrava dos amigos, das festas. Não era ruim. Simplesmente um ponto de vista diferente. Queria sentir falta de tudo e de todos. Se esforçava, mas não conseguia. Por incrivel que pareça, não mais sentia aquela inquietação por não estar como todos eles, por não ser um deles. Aquela vontade louca de sair porta a fora sem se importar com nada nunca mais assolou-lhe o coração. Muitos sentiam saudades. Diziam que esse novo rapaz não era nem de longe o mesmo de outrora. E realmente não o era. Mas apesar de todos se prostrarem contra essa mudança, ele não tinha vontade de voltar, ele não sentia necessidade de mudar.
De tanto se esforçar, já não diferia as coisas. Não mais sabia se ele havia mudado o suficiente para afasta-lo das pessoas, ou se as pessoas ao redor haviam mudado tanto que enterraram toda a saudade que fazia-os unidos. Provavelmente as duas coisas. O mundo não era mais folia, bebida e agito. As lentes haviam mudado, e o mundo parecia completamente diferente aos seus olhos. Mas assim como o anteiror, esse novo mundo as vezes parecia a beira do colapso. Prestes a ruir. Talvez o mundo antigo realmente tenha sumido, se divido, e por sobre as fendas ninguem podia passar. Realmente, era isso, cada grupo separado pelas imensas fendas remanescentes da destruição do mundo, e agora, separados pelo espaço e também pelo tempo, cada um criava o seu novo mundo, com os que ficaram a sua volta.
Todas noites, antes de dormir, era isso que ele pensava. Esse ciclo de pensamentos espantava-lhe o sono e deixava mais atento ao mundo. E como sobrevivente de um mundo destruido, as sequelas e o panico daquela época ainda lhe assombram às noites a cada pequeno tremor...

Thiago M. Lacerda

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Artificial

Com as têmporas latejando, ele sentou-se à frente do computador. Há algum tempo não escrevia, mas de súbito sentia que naquele momento algo interessante sairia. Andara se perguntando se aquela tecnologia toda não espantava a criatividade. Na verdade, seu estilo não era aquele. Provavelmente uma maquina de escrever em quarto mal iluminado se encaixaria muito melhor em seus textos. Mas ali estava, olhando para aquela tela iluminada, onde as coisas apareciam e sumiam com facilidade.
A dor nas têmporas aumentou, e o cheiro de sangue surgiu de dentro das narinas. Não sabia exatamente o que escrever, mas a vontade de tal ato lhe impedia de ir dormir. Já eram quase três horas da manhã, e depois de um telefonema, o sono havia partido. Talvez toda aquela situação tivesse recuperado um pouco da inspiração. E de fato ela voltou, pois os dedos se mexiam de lá pra cá, no tec tec do teclado, de uma forma natural, quase inconsciente.
Já no terceiro parágrafo, ainda não tinha a menor ideia do porque escrevia, muito menos sobre o que. Sob a luz artificial de uma lâmpada florescente a noite sequer chegava no quarto. Ele sabia que la fora, já era alta madrugada, mas ali dentro o tempo não parecia passar... Sempre a mesma temperatura, controlada pelo condicionador de ar. Sempre a mesma luz, nada de sol a pino ou noite sem lua. Os velhos violões encaravam-no como a esperar um bom texto, algo que pelo menos lembrasse os velhos tempos, os velhos textos. Os bons textos.
Nas últimas linhas sua cabeça doía tanto que os pensamentos pareciam chacoalhar perante o latejar das têmporas. O cheiro de sangue nas narinas era nauseante. A sensação de suar frio surgiu aos poucos na testa e nos braços. Baixou a temperatura do ar condicionado e desligou a luz, e ao terminar o texto, concluiu com a maior das tristezas que aquela seria mais uma tentativa vã. Bons textos não nascem em cativeiro...


Thiago M. Lacerda

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Reveillón

Naquele dia, completavam um ano e quatro meses. Não foi o melhor ano... Inpumeras brigas e discussões inúteis haviam afastada aquele casal apaixonado de outrora. A última parecia ter sido a gota d'água: A traição. Cerca de um mês antes ela havia descoberto a traição. Dias e dias de uma discussão sem fim.

- Porque? Eu não lhe dei tudo de que precisava? O que te faltou aqui? Amor? Carinho? Atenção? Sexo?
- Deixa pra lá...
- Como assim, deixa pra lá? Eu fui trocada e agora tu quer deixar pra lá?

E assim se seguiam discussões que começavam e terminavam sem nenhuma conclusão. Até que, cansado das evasivas, ele abriu o coração:

- É, realmente faltou alguma coisa sim! Compreensão e espaço! Eu sei que errei, mas foi a única forma de me fazer ouvir! Agora sim, tenho toda a atenção.
- Então era isso? Será que eu preciso dizer que não há mais nada entre nós então?
- Na verdade, acho que não... Eu te amo, e a única coisa que eu quero agora é estar novamente contigo... Prometo que...

Promessas... Era fim de ano, e essa era mais uma das promessas... Dessa vez, nada de emagrecer 5kg, estudar mais, ser mais atencioso. A promessa era não trair. Por outro lado, ela prometia prestar mais atenção nele. Mas o ato imperdoável da traição foi perdoado. Ele prometeu. Ela perdoou. Mas nada foi igual*.
Diante dos fogos de artificio, as promessas pareciam certezas. O show pirotécnico que iluminava a orla do Guaíba davam um tom quase profético aquela reconciliação. Senão profético, com certeza poético. 00h01min. Aos beijos, comemoravam o ano que viria, a reconciliação, e as promessas. 00h05min. Nos braços dele, ela se sentia já mais segura, pronta para enfrentar mais um ano. 00h07min. A felicidade dos dois parecia a melhor coisa no meio de tanta gente. Ninguém poderia se amar tanto. 00h10min. Nada mudou.


 Thiago M. Lacerda



*Trecho retirado da música Disco Rock, da banda Papas da Língua.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

As aparências enganam

De subito, acordei. Enxarcado, suando frio. Senti uma veia latejar sob minha testa, enquanto meus olhos pareciam prestes a saltar das órbitas. Pela dor na nuca, imaginei que estivesse com a pessão altissíma. Não que seja normal, mas acostumei-me a ouvir sobre as dores de cabeça, frutos da hipertensão de minha avó. Não lembro exatamente o que me havia acontecido. Lembro de ter sonhado com um corredor enorme, com as paredes cobertas por musgos e teias de aranha, toda de tijolos crus. Ao fim, uma janela. Olhei para o lado e percebí que a janela do meu quarto era exatamente igual a do sonho. E o pior. Alguém me espiava pela janela. Impossível! Como alguém estaria do outro lado da minha janela, no segundo andar!? Era um homem aparentando cerca 45 anos. Seu olhar era assustador. Começou a abrir a janela quando, de súbito, acordei.
Acordei? É, acordei, olhei imediatamente para a janela, e percebi que aquilo havia sido o sonho dentro do sonho. Ainda era noite. Alta madrugada, e o vento la fora uivava. Deitei a cabeça no travesseiro e me permiti fechar os olhos demoradamente. Uma pancada na janela me tirou do meu transe, e num susto percebi que o homem do sonho estava na minha janela! Não acreditei. Novamente um sonho. Tentei gritar, me mexer, precisava acordar. Com meio corpo para dentro do meu quarto, o homem continuava me olhando com olhar assustador.
Num pulo, acordei. Suspirei aliviado. Finalmente a salvo daquele pesadelo. Revire-me na cama. Pânico. Horror. Ele estava ali, em pé, ao meu lado, me observando. Seus olhos negros pareciam prestes a me atacar. A expressão insana do rosto era a mesma de quando me via através da janela. Debati-me. Não podia ser real. Um pesadelo. Não havia outra explicação. Aquele invasor simplesmente me observava, e nada mais. Gritei o mais alto que pude.
Com o sol no rosto, finalmente acordei. Já era de manhã, e o céu aberto me acalmou um pouco. Levantei-me, e ao olhar para a rua novamente, percebi algo que até então não havia visto. Um pedaço de pano preto, preso à janela. E, putz, tinha certeza de ter fechado a janela antes de ir dormir...

Thiago M. Lacerda

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Já é outro dia

Veja quem quiser ver
Ouça quem quiser ouvir
Pois nos meus olhos hoje vive uma estrela
E no meu peito hoje bate um coração


Não tenho mais medo de dizer
Não tenho medo de que escape a emoção
Te amo, te amo, te amo
Mais que isso, palavras não dirão

Thiago M. Lacerda

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Estrelinha

Certa feita, disse o poeta
Que a estrela mais distante
É a que nos encanta
É pra esse estrela
Que o poeta canta

Acho que de tanto observar
Essa estrelinha desceu do céu
E veio me iluminar

Com um beijo doce
Me deu seu calor
No olhar sincero
Senti todo o amor

Não há trevas
Que vençam essa luz
Que do amor nasceu
E pro amor conduz

Thiago M. Lacerda

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um só beijo

É a esperança que me leva a ti
Um só beijo, e tudo mudou
Naquele dia novamente sorrí
E desde então, algo em mim ficou

Confesso, tive medo
Mas o calor que há em mim
Essa pequena fagulha de vida
Me da coragem pra te querer mais e mais

Um só beijo, e tudo mudou
A cena se inverte
E traz de volta aquilo que se apagava
Reascende a chama pra te querer mais e mais

Te quero aqui
Como da última vez
Ter teu carinho
Não sabe o bem que me fez

Um só beijo
E te provo que vale a pena

Thiago M. Lacerda