terça-feira, 9 de março de 2010

Sentido da palavra

Se esqueceres o sentido da palavra amor
Considera-te o mais desafortunado dos sortudos
Pois do teu coração não brotará mais o sofrimento
Tampouco a felicidade irá encher teus olhos

Quando o fogo da paixão não mais te esquentar
Não haverá carinho que te acalente
E nem luz que faça com que brilhe teu olhar
O mundo opaco será o único ambiente à volta

Na verdade, olhe pra mim
Cruze minhas olheiras profundas
E olhe no fundo dos meus olhos

Se esqueceres o amor
Serás assim!

Thiago M. Lacerda

domingo, 7 de março de 2010

Chorem

Onde é que a sanidade beira a loucura?
Qual é o momento exato que cruzamos a fronteira?
Muito se arrisca que flerta com a incerteza
E quando o sol se por, isso será facilmente percebido

Quando a luz se for, a lua regerá os loucos
Os apaixonados e os solitários
Sob o lençol de estrelas, cada um poderá sofrer em paz
E o reflexo da lua nos olhos será eterno

Sim, somente o reflexo da lua traz de volta a vida
Àqueles olhos que há muito já não brilham
E que, no fundo do olhar dos outros
Não tem sentimento nenhum

Mas quando o luar não mais estiver
E o sol nascer num novo dia
Chorem, pois também não estaremos mais entre vocês

Thiago M. Lacerda

quarta-feira, 3 de março de 2010

VaIdade

Do orgulho à vergonha vai a nossa idade. Queremos que passe rápido, que nos tornemos mais velhos o quanto antes, e quando o quanto antes chega, o arrependimento torna a idade um segredo. A vida começa aos 40. 30 é a idade perfeita. Quem aproveita mesmo é quem tem seus 20 anos. Cada época da nossa vida pode ser taxada como a melhor, ou a pior. Esse pessoal de 20 ai não tem cabeça pra nada, é muito novo. A geração dos quarentões já não consegue se atualizar. Tudo tem seus prós e seus contras, e para não nos sentirmos mal, procuramos motivos para nossa idade ser melhor que as outras.
Botox, alimentação saudavel, exercicios fisicos, cremes faciais. É verdade, tudo isso funciona, e se chama estética. Mas não é somente o que está à vista de todos que faz de nós velhos ou novos. Certa feita lí um texto da Lya Luft sobre o assunto. Lembro que perto do fim do texto, ela falava que as cirurgias plasticas podem tirar os pés de galinha, mas ainda não inventaram procedimento cirurgico que renovasse o brilho dos olhos. Quem vive mal, perde o brilho do olhar. Um olhar opaco envelhece mais do que rugas e cabelos brancos, e sempre trará novas rugas aos rostos rejuvenescidos. Isso porque o corpo só pode se manter jovem se o coração e a mente também o estiverem. Um coração triste ou uma mente fechada não consegue manter bonito um corpo.
O sorriso radiante e a luz que se esconde no fundo de cada olhar são a unica maneira de reconhecer um jovem, tenha ele 13, 27, 45 ou 70 anos. E isso, nenhum tratamento estético pode mudar.

Thiago M. Lacerda

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O banco

Quantas pessoas já sentaram nesse banco?
Sentou índio, negro, mulato e branco
Rico e pobre, jovem ou não
O banco não distingue
Credo, cor ou religião

Nessa noite, é a chuva que ocupa o banco da praça
Agora é umido o assento
Que já sustentou amores e amigos
Ja escutou cantadas e canções
Passou por invernos e verões

Cor sobre cor
Tinta sobre tinta
Ninguém mais sabe
Qual é o verdadeiro banco

Quem passa nem da bola
Quem senta, logo levanta e sai
Mas quem, de longe, observa
Sabe que não é só mais um pedaço de madeira
Porque ali se passaram coisas
de muita importancia ou besteira

Naquele banco ficaram pedaços de corações
Mas hoje, é a chuva que embala as emoções

Thiago M. Lacerda

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Cinza

O coração endurece
Se torna frio e sem cor
Quando desaparece,
Nele, o amor

Os olhos perdem o brilho
De tão opacos, perdem a visão
E nunca mais vêem paixão
Para salvar o coração

É desse fim de vida que brota o frio
E agora me pergunto:
Ainda há algo que preencha esse vazio?

Thiago M. Lacerda

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Bolha de cristal

Não sei ao certo quando esse sintoma começou, mas o fato é que certa noite a solidão havia tomado sua vida de tal maneira que desde então viveu calado, mudo, anestesiado.
A tarde quente caíra horas atrás e a noite ja se prolongava na sacada do apartamento. A Av. Central mantinha um fraco fluxo de automóveis e pedestres iluminados pelas luzes amareladas dos postes, dando assim um ar triste à tão moveimentada Capão. Nessa solitária sacada, uja noite parecia ainda mais avançada, um rapaz, deitado na rede, lia a página 357 de uma velha história. São as velhas histórias que tocam fundo no coração da gente, e ninguém sabe porque, mas marcam nossas vidas. A noite corria assim como as páginas do livro. Chegara na 394.
"Entretanto, antes de chegar ao verso final já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade das miragens seria arrasada pelo vento e desterrada pela memória dos homens..."
Os mosquitos há muito não lhe tiravam a atenção, mas um especial tirou-o da leitura. Pousou em seu ombro, e sob o jugo de um tapa feroz, padeceu ali, deixando que seu algoz voltasse à leitura.
"... no instante em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergamihos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetivel desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade na terra."
Chocado com o fim do imenso conto, sentiu um bater de asas sutil. Pensou no bater de asas das borboletas. Desviou o olhar do livro, e percebeu que na verdade eram bolhas de sabão que lhe rodeavam. Em cada bolha via um trecho de sua vida. As imagens passavam lentamente refletidas naquelas esferas. Porem, o reflexo da ultima mudou sua vida para sempre. Viu uma frase metalica na frente de um chafariz: Ad Verum Ducit*. Largou o livro, deixou-o em cima da mesa junto do celular e das chaves, saiu porta afora, e deixou para sempre aquele mundo de ilusões.

Thiago M. Lacerda

* Ad Verum Ducit, do latim, significa "Conduzir à verdade"

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Hipnose

Olhando o cinzento céu de uma tarde chuvosa me sentí estatico, paralisado, anestesiado. Por um breve segundo o sangue parou de correr nas minhas veias e o coração findou seus batimentos. O ar congelou no peito, e aquele frio que queima tomou conta do meu corpo. A chuva continuava a cair, mas eu não mais sentia seu toque doce e brevemente gelado. A imagem das nuvens negras emolduradas pelas copas das àrvores ficou marcada na minha mente, e é a única coisa que lembro antes de tudo escurecer. Fechei os olhos. E ao abrir, a sensação mais sublime da minha vida foi-se, como num piscar de olhos...

Thiago M. Lacerda